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professor Mamede Said, Direto da Faculdade de Direito da UnB

Atualizado: Mai 19


Em entrevista, o professor aborda questões relativas à ética na sociedade atual, ética e educação, além de comentar sobre a corrupção na sociedade brasileira.”. Confira:

Jornal Nosso Bairro – Em sua opinião, o que é ética na visão do cidadão brasileiro e quais são os principais valores éticos cultivados pela nossa sociedade?

Mamede Said – Penso que a sociedade clama por um comportamento ético, principalmente da parte de seus agentes políticos e homens públicos. As denúncias de corrupção e malversação de recursos públicos (reveladas, entre outras operações, no âmbito da Lava Jato) deixam claro que nossas elites políticas seguem colocando seus interesses pessoais em primeiro lugar. Mas a sociedade de uma maneira geral precisa trazer o discurso ético para sua prática cotidiana. De nada adianta o indivíduo criticar e acusar os políticos, por exemplo, se em suas atividades diárias ele burla as regras de convivência social em detrimento do interesse do próximo e do bem-estar da coletividade.

A corrupção no âmbito político e social pode ser considerada uma falha de formação cívica? Por quê?

Certamente que sim. A corrupção que grassa, em todos os níveis, na Administração Pública brasileira é reflexo de uma visão mais geral na qual “se dar bem” parece ser o que move os indivíduos. Trata-se de uma debilidade cívica na medida em que atinge principalmente o interesse coletivo. O agente público que desvia dinheiro público está lesando a educação, a saúde e a infância; na verdade, ele compromete o futuro do país e a construção de uma sociedade melhor. Sua conduta é mais condenável porque se confiou a ele a representação dos interesses populares, e ele trai essa confiança sem medir as consequências do que faz e deixa de fazer.

Apesar de ser a mais conhecida e ter seu conceito generalizado, a corrupção na política pode ser entendida como um reflexo da nossa sociedade? A que se deve esse fenômeno?

“Todo povo tem o governo que merece”, diz o ditado. No caso brasileiro, o Congresso que temos, por menor que seja sua credibilidade, é constituído por representantes eleitos, ou seja, parte significativa da sociedade se vê representada nos parlamentares que aí estão. O fenômeno da corrupção tem muito a ver com nosso passado patrimonialista, no qual os governantes tratavam o Estado como se fosse parte de seu patrimônio, havendo uma total confusão entre o público e o privado.

O “jeitinho brasileiro”, em parte, pode ser entendido como um ato para burlar a ordem? É um traço de corrupção do brasileiro? O que torna um cidadão “corrupto”?

A expressão “jeitinho brasileiro” relaciona-se com a ideia de improvisação, de criatividade e esperteza que muitas vezes extrapola as relações pessoais e alcança a esfera público-estatal. Licitações dirigidas, contratos superfaturados e o nepotismo na administração pública constituem o caldo de cultura que alimenta e retroalimenta a corrupção, atingindo as instituições e tirando delas a credibilidade necessária. Assim, o “jeitinho” pode ter, sim, uma dimensão negativa, e não de mero traço das relações interpessoais.

A corrupção no âmbito político e social pode ser considerada uma falha de formação cívica? Por quê?

A corrupção é, sim, uma falha ética, e as deficiências do nosso sistema de educação com certeza contribuem para sua reprodução. Quanto menos educação e menos cultura, maior é a corrupção sistêmica.

Assim como na política, a sociedade brasileira também pratica corrupções como os gatos de energia e internet, sonegação de impostos, entre outras. Quais soluções devemos perseguir para alcançarmos uma sociedade com menos infrações desse tipo?

É preciso romper com essa ideia de que levar vantagem, transgredir regras em prol de benefícios próprios, obter favores espúrios e agir de forma maliciosa representa algo positivo. As infrações do dia a dia, se toleradas, acabam por se disseminar para outras esferas, alcançando o espaço público-estatal.

De acordo com a pesquisa do Instituto ETCO, 90% dos jovens brasileiros consideram a sociedade pouco ou nada ética. A que se pode atribuir essa falta de esperança exposta pelas gerações mais jovens?

As novas gerações são contemporâneas de um período muito conturbado da história brasileira, e é natural que o sentimento delas seja de indignação e revolta. A melhor forma de contribuir para a melhoria da situação do país é se fazer atuante, exercendo cotidianamente não apenas seus direitos, mas também seus deveres de cidadão. Se a juventude descrê, o futuro da sociedade como um todo fica comprometido. Por isso, é preciso que os jovens se tornem protagonistas do processo político-social, deixando de lado qualquer postura de passividade e alheamento.

Quais profissionais atualmente o senhor considera mais envolvidos com o exercício da ética? Por quê?

Não considero que alguns profissionais em particular estejam envolvidos com o exercício da ética, em detrimento de outras categorias. Pessoas comprometidas existem em todos os segmentos profissionais, e é nelas que temos que apostar para que a realidade do país como um todo possa ser aprimorada.

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