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Thatiane Oliveira Tavares fala sobre o coronavírus e a psiciologia.

Atualizado: Mai 19

Psicóloga clínica, especializada em mindfulness, psicologia da sexualidade, Thatiane Tavares conversou com o JNB para falar sobre os efeitos do isolamento social na rotina das pessoas e como achar soluções para os problemas que surgem com o período de quarentena.


Não sabemos quanto temos ainda teremos que permanecer em quarentena, em isolamento. Quais os principais impactos disso na saúde mental das pessoas e quando eles começam a acontecer de fato?

Antes de tudo, precisamos ter em mente a ideia do consciente coletivo, não estamos falando de casos individuais e isolados. Um dos impactos pode ser a melancolia e, na questão biológica, a delimitação de espaço do isolamento pode trazer estresse. Uma boa parte da nossa sociedade vai estar ansiosa, estressada e também melancólica, esses são os impactos negativos. Mas não são só impactos negativos, vamos ter impactos positivos também. Se as pessoas estiverem dispostas a se concentrar nesse momento, vamos ter maior auto percepção, autoconhecimento, vamos saber nossos limites, aprender a nos organizar porque esse tempo pede organização.

Além da pandemia e do isolamento, há também a mudança radical de rotina. Que abalos essa mudança pode trazer? Isso pode desencadear síndrome do pânico, depressão?

Sim. Esse momento está mais promissor para desencadear a síndrome do pânico, as crises de ansiedade, nós estamos em um momento de alerta, tudo está muito sensível. Para quem é sucessível a esses transtornos, esse é um momento em que eles podem se agravar, assim como quem não estava suscetível a isso, pode vir a desenvolver nesse momento. Não é um momento tão bom mentalmente falando. Todas as pressões externas estão colaborando para que as pessoas se sintam muito mais vulneráveis nos acometimentos mentais e psicológicos.

É possível a gente se adaptar ao isolamento social? Se não, como podemos minimizar seus impactos?

Há uma possibilidade de adaptação ao isolamento. É claro que o novo assusta, em um primeiro momento vamos ter o grupo daqueles que vão aceitar bem o isolamento e aqueles que não vão aceitar, mas depois de um tempo vão conseguir se adaptar. Assim como aqueles que aceitaram bem no início, em um determinado momento podem se sentir mais tediosos. A psicologia e a área da saúde têm trabalhado o pensamento das pessoas para que elas mantenham rotinas saudáveis. Quem tem uma rotina de sair de casa para trabalho, estudo, academia, que essa rotina não seja alterada no sentido psicológico e mental, mas apenas no sentido de deslocamento, que não vai existir. Não devemos fazer do isolamento um período de estagnação, mas que sejam mantidas as atividades.

Mas o ócio também não poderia ser positivo?

As pessoas tendem a levar muito ao 8 ou 80, mas tudo na vida é questão de equilíbrio. O ócio faz parte da nossa vida não apenas no período de quarentena. Temos que valorizar também os momentos de lazer. O ócio pode ser um descanso, ver um filme, fazer uma leitura agradável, isso sim tem que fazer parte, principalmente nessa época. Dentro do setting terapêutico, eu sempre falo que são pontos de luz em que a gente consegue iluminar o nosso dia, alienar um pouco nesse momento tão estressor e dar uma relaxada, porque se a gente a gente não equilibrar a rotina entre produtividade e relaxamento, a gente não consegue se adaptar tão bem diante de fatos tão instáveis. Estamos em um momento de disciplina muito grande.

Com relação a essas crianças, como lidar para que eles consigam compreender o momento sem que eles sintam medo do que está acontecendo?

Todo trabalho realizado com crianças deve ser realizado de forma lúdica. A primeira orientação que eu para os pais é de que as crianças não estão alheias à realidade, independente de não verem jornal, elas percebem a mudança. Ao explicar sobre a doença, devemos sempre amenizar o impacto justamente para não passar medo para as crianças. O responsável por essa criança deve entender que esse é um momento de esclarecimento e não de alarde. É preciso organizar o tempo da criança que também precisa de rotina, ter os momentos de lazer com seu filho, tentar coordenar a rotina para que a criança não se sinta solta e possa se readaptar facilmente a rotina quando tudo voltar ao normal.



Como esse isolamento social afeta os relacionamentos conjugais? A psicologia trata homens e mulheres de forma diferente nesse caso?

Nós temos alguns aspectos que trazem diferenças, mas não de gênero, e sim de personalidade. Pessoas com personalidade mais extrovertida se sentem mais ansiosas com o confinamento. Pessoas que tem uma personalidade mais introvertida vão se sentir mais incomodadas pela aglomeração. Não é questão de gênero, é questão de personalidade. Ter essas duas pessoas em um ambiente só pode causar um estranhamento. É preciso ser adaptável e entender que existem diferenças.

Todos nós estamos passando por um momento difícil em que estamos sendo bombardeados com informações o tempo todo. Tem pessoas que acreditam em um isolamento total, outras que acreditam que deve haver isolamento parcial ou o não isolamento. O que devemos evitar no dia a dia para sofrer menos?

Sempre peço para que meus pacientes, aqueles que tem essa possibilidade, que filtrem as informações, selecionem um horário para que esse consumo de informações aconteça. A gente não pode ficar 24 horas envolto nessa mesma temática. É importante sempre ir em portais confiáveis, buscar informações que tenham de fato apuração. Ficar em alerta o tempo todo para cada novidade que acontece acaba gerando mais ansiedade, medo, estresse e angustia.

O que podemos fazer para manter a cabeça sadia?

A primeira recomendação é não se colocar em uma situação de estresse, não ficar rodeando sobre este tema, mas pensar em coisas além da COVID-19. A segunda dica é manter uma organização diária, de rotina. Buscar adaptar a rotina de uma forma saudável, praticando exercícios físicos, com momentos de lazer. Temos que tirar da nossa cabeça apenas o pensamento na pandemia e do isolamento. Devemos aproveitar as oportunidades desse momento, sabendo filtrar elas para que não gerem mais desgaste. Por último, é preciso ter calma diante das informações, ter realmente resiliência mental, capacidade de se refazer.

Existe algum programa de atendimento online para quem achar necessário receber um suporte da psicologia nesse momento?

Existe sim. O Conselho Federal e o Conselho Regional de Psicologia autorizaram que os psicólogos fizessem o atendimento online nesse momento, mesmo que não possuam um cadastramento especifico para essa modalidade. Pela plataforma e-psi.com.br é possível encontrar uma gama de profissionais que podem te atender online. Nesse momento é importante que quem estava na manutenção terapêutica permaneça fazendo terapia, que quem está se sentindo em sofrimento procure atendimento. A vantagem é que você está na sua casa, você se sente melhor por ser o seu ambiente de reconhecimento.

Quem trabalha com o Home Office, como evitar as armadilhas do lar? Como se organizar mentalmente para garantir ou aumentar sua produtividade?

Temos que separar em dois perfis. Temos o perfil das pessoas que tendem a ser mais acomodadas, e o perfil das pessoas que tendem a ter um auto cobrança muito grande. Quem tem tendência a se acomodar o ambiente de casa é uma armadilha, o ideal é estabelecer uma rotina, tomar um banho, tirar o pijama, delimitar seus horários e dividir seu ambiente de trabalho, separar um espaço especifico para o trabalho. Para aqueles que tem um auto cobrança, falamos do perigo da produtividade, que é o estresse e a ansiedade travestidos de produtividade. Os workaholics pensam que, por estar em casa, devem produzir muito mais do que no ambiente de trabalho, e isso pode gerar muito estresse, ansiedade, aumento de cortisol. Você pode produzir muito mais, mas tudo deve ter um limite para ser saudável, problemas mentais podem ser ocasionados por esse excesso.

Falamos de várias coisas ruins, mas e as coisas boas? Podemos sair melhor do que entramos nesse momento?

Com certeza. Estamos tendo um advento de ligações muito grande, por exemplo. As pessoas em isolamento estão ligando mais para as pessoas, interagindo mais com seus amigos. É uma questão de entender que somos seres relacionais e temos de ter a manutenção do relacionamento fraternal, familiar, amoroso. Essa percepção está crescendo. Quem está dentro de casa está prestando mais atenção em quem está ao seu lado, isso está estreitando mais os laços. De forma individual, esse é um momento que chama para nossa auto percepção, daquilo que gostamos, de descobrir e reconhecer limites, tudo isso tem um ponto positivo de chamar a todos para um lado mais humano, mesmo que utilizemos a tecnologia a nosso favor.

Existe algum tempo que demonstre que as pessoas podem voltar a rotina depois do isolamento prolongado?

A readaptação ao sair e trabalhar tem um prazo. Diversos artigos falam sobre isso. Não há um tempo especifico de regra, mas de modo geral falamos em torno de três dias uteis para que as pessoas se readaptem a nova realidade, até que tudo entre no eixo no sentido mental mesmo. Mas isso depende muito de como cada um encarou esse tempo de isolamento.

Acerca as pessoas que cuidam da saúde e segurança, que estão protegendo a vida das pessoas e também tem que proteger suas próprias famílias, como a psicologia vê esses profissionais, que não podem parar? Como fica o emocional dessas pessoas?

Essas pessoas já são submetidas a um ambiente de estresse muito maior do que as outras profissões. Nesse momento, é difícil mensurar a quantidade de carga estressiva e de ansiedade que esses profissionais podem estar acometidos. A psicologia tem trazido práticas saudáveis para a promoção da saúde, que podem acontecer no ambiente de trabalho, como por exemplo tirar um tempo para esses profissionais fazerem um alongamento, que parem um momento para esquecer um pouco aquilo, aliviar a cabeça. Para os familiares dessas pessoas, é preciso ter uma compreensão muito maior com eles. A psicologia incentiva o equilíbrio, o mindfulness vai trabalhar na meditação, trabalhar a atenção concentrada, os pontos de respiração e fazer manutenção terapêutica, que é necessária para esses profissionais. É preciso ressignificar seus ambientes, ter seus momentos de ócio e lazer bem delimitados e reais.

Gostou do papo? Para mais informações acesso o Instagram da Psicóloga : @thatiane.otavares

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