JNB ENTREVISTA: Senador Cristovam Buarque


Ex-governador do Distrito Federal e senador desde 2003, Cristovam Buarque é reconhecido como um dos maiores defensores brasileiros pela educação de qualidade e avanço tecnológico. Em entrevista, o senador fala um pouco sobre o panorama da educação no país, tratando de pontos sensíveis como analfabetismo E a qualidade de ensino no DF.

Como o senhor avalia o papel da educação para a construção de uma sociedade melhor?

Está provado que só a educação consegue aumentar a produtividade de cada indivíduo e, consequentemente, aumentar a renda de acordo com o talento de cada um. A educação de qualidade proporciona a riqueza do país, denominada de PIB per capta, que vem da produtividade de cada um e depende da educação.

E se essa educação for boa para todos igualmente, as pessoas que a receberem e que a usarem de acordo com sua vocação, talento e persistência, vão ter mais chances de participar da renda nacional. Não há outra solução. Esses dias estava conversando com uma pessoa da Austrália sobre educação e me questionei: Por que a Austrália deu certo? Porque, além de um país justo e civilizado, investiu muito em educação.

Qual sua opinião sobre o uso de novas tecnologias na educação?

São dois pontos a considerar. Um é o uso da tecnologia na educação. O outro é a educação para o avanço científico e tecnológico. O mundo hoje tem o conhecimento como o principal vetor da produção, do capital e instrumento de aumento da eficiência da economia. O conhecimento é o que faz um país ser rico. Quando o Brasil começou, nossa economia era baseada na terra para produção de cana, depois no ouro, nos braços dos escravos, e hoje na cabeça das pessoas que tem conhecimento. É preciso investir na escola para que os alunos gerem “riqueza-conhecimento”. Será através dela que as outras riquezas serão geradas. Hoje, uma escola só é agradável para jovens e crianças se ela usar as novas tecnologias. Celular tem que ser usado como um instrumento pedagógico, pois é muito mais atraente para as crianças do que o velho quadro negro.

O Brasil é o 8° país no mundo com mais analfabetos. Quais caminhos devemos seguir para resolver esse problema?

São duas estratégias: uma é não esquecer que nós temos dez milhões de adultos que não sabem reconhecer a bandeira brasileira. Nossa bandeira é uma das únicas no mundo que tem um texto escrito. Um analfabeto não sabe ler “Ordem e Progresso”. Então essa questão é um caso de direito humano, de patriotismo. Quem não sabe ler não sabe pegar um ônibus. Logo, precisamos de uma estratégia que alfabetize todos os adultos desse país.

Outra forma de agir para a erradicação do problema é através da alfabetização de crianças de até oito anos de idade. O problema do Brasil é não fazer uma grande campanha contra o analfabetismo ao longo do tempo. Quando fui ministro, atuei tocando o programa “Brasil Alfabetizado”, colocando três milhões de pessoas para aprender a ler e escrever.

Enquanto não resolvermos o problema de ter escola para todos, não resolveremos o analfabetismo no país.

Qual sua opinião sobre a qualidade do ensino no Distrito Federal?

Se você comparar com o resto do Brasil, estamos melhores do que quase todos os estados. Mas isso não pode ser um consolo, por duas razões. Primeiro, porque o nível de qualidade da educação no Brasil é muito baixo. Em alguns estados, chega a ser semelhante aos piores países da África, então é uma comparação quase que inválida. Além de que o DF é a única unidade da federação brasileira onde a educação é paga pelos brasileiros em conjunto, por meio da federalização. Aqui, a educação é paga pela União. Nas outras regiões, essa tarefa é do estado e do município. Além disso, não somos os melhores. Talvez, já tenhamos sido há algum tempo atrás.

As universidades públicas vêm sofrendo uma grave crise orçamentária, com redução acentuada de investimentos. O senhor concorda com essa política de corte de gastos?

O problema não é concordar, mas saber se existe outra alternativa. O Brasil gastou demais com infraestrutura básica (pontes, estradas, hidrelétricas), salários altos para algumas categorias como parlamentares e juízes, estourando o orçamento. Quando se chega nessa situação, há duas alternativas que o Brasil costuma usar. A primeira é a desvalorização da moeda para aumentar a inflação e evitar a retirada de recursos. A segunda alternativa são os cortes de gastos. Talvez, o erro aqui seja que nós universitários não estejamos nos mobilizando o suficiente para que esses cortes sejam nos custos do Senado, da Câmara, do Judiciário, nos subsídios excessivos para empresários, e não na universidade.

Só que estamos tão acostumamos em pedir dinheiro, sem dizer de onde tirar, que o dinheiro acabou. Está na hora de acordarmos e, antes de pedir, identificar com clareza de onde iremos tirar os investimentos das universidades.

Recentemente, fiz um levantamento identificando que com uma redução de 0,6% dos gastos do Congresso, sem citar a justiça, já seria suficiente para cobrir o dinheiro que o governo retirou da educação para colocar na redução do preço do diesel, depois da greve dos caminhoneiros.

O senhor votou a favor da PEC 55 que congela gastos em serviços básicos, como saúde e educação, por 20 anos. Não seria um contrassenso com a sua trajetória política?

A PEC 55 não reduz gastos em nenhuma rubrica, muito menos em educação. Aliás, está escrito na PEC que a educação pode receber mais recursos porque o FUNDEB não fica preso ao limite. O que a PEC 55 diz, e que eu votei a favor, é que não se pode gastar mais do que se arrecada. Para poder driblar a conta, os governos e a elite brasileira faziam uma coisa chamada inflação.

O que nós, defensores da educação, devemos fazer é lutar por mais recursos, apontando de onde vamos tirar esse dinheiro. Um bom lugar para retirar esse recurso é do Congresso e do Judiciário, duas instituições brasileiras que estão entre as mais caras do mundo. Outro ponto são as isenções fiscais para empresários que têm que acabar. Como defensor da educação, tive que votar na PEC 55, pois, além de respeitar a aritmética, temos que dizer de onde vamos tirar o dinheiro.

#educação #futuro #analfabetismo #universidade #PEC55

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Márcio Caetano