Caio Bonfim, atleta olímpico nascido e criado em Sobradinho/DF

Atualizado: Mar 17

Detentor de diversos títulos na marcha atlética, Caio Bonfim relata como está se preparando para as Olimpíadas de Tóquio

JNB - Por que marcha atlética e como se deu essa sua carreira?

CB - Meu pai é treinador de atletismo e minha mãe era atleta profissional. Ela que descobriu a marcha atlética, veio dela. Eu cresci vendo a marcha atlética em casa, fiquei muito feliz por nascer nesse ambiente onde meu pai é treinador e minha mãe é marchadora. Eu, brincando, falei pro meu pai que eu sabia fazer e ele fez um teste, gostou e nunca mais me deixou quieto. Eu me apaixonei e fui me destacando. Com três meses, eu já estava em campeonato mundial, e aí foi fácil a troca do futebol pela marcha, por eu ter me destacado muito, foi totalmente por influência dos meus pais.

Geralmente, o pai quer que o filho jogue futebol, pelo menos antigamente era sempre assim. Você jogou profissionalmente no Brasiliense e em outros clubes do DF e, segundo seu pai, você foi um ótimo jogador. Mas essa carreira não deu muito certo. Como isso aconteceu?

O futebol é muito difícil, primeiro porque no Brasil tem muitos craques e Brasília é um lugar muito difícil para você ser jogador, são poucos os que conseguiram sair por causa dos poucos times que a gente tem que se destacam. Enquanto eu estava no Brasiliense, fiz o teste da marcha atlética. Quando você quer uma vaga num time de Brasília, mas por outro lado você faz um teste num esporte que já te coloca na Seleção Brasileira dele, aí você começa a ver que é melhor experimentar ir por aquele caminho ali. E eu acredito que eu fiz a escolha certa.

Nas Olimpíadas do Rio, o atual campeão mundial tinha 15 anos de idade. Como é a relação entre idade e a marcha atlética? Existe um período em que o atleta rende mais ou isso é relativo?

É relativo. Geralmente, os juvenis, Sub-20, fazem dez quilômetros. A prova olímpica é de vinte quilômetros. Esses primeiros atletas, até os 23, estão muito rápidos. Aparece um cara igual a esse campeão e muda tudo, ele é rápido, conseguiu colocar volume, disciplina, nos primeiros anos, ele já está marchando muito. Depois, é normal ir perdendo um pouco da velocidade, por causa da idade.

É uma mistura de técnica e disciplina?

Sim, disciplina, e da velocidade que ele tem. Tem muita gente com 22 ou 23 anos marchando muito, mas tem uma galera de 32 ou 33 anos também ganhando medalha em mundial.

Em termos físicos, o que é mais importante para um atleta neste esporte?

Na verdade, o que importa é o treino. Tem atleta de 1,90m que é medalhista olímpico e tem atleta que ganhou três mundiais seguidos com 1,65m. A marcha é legal por isso, tem atletas de todos os tipos.

Você ficou em 39° em Londres e 4° lugar no Rio de Janeiro. Qual a sua expectativa para Tóquio este ano?

Eu não posso chegar falando que vou ganhar uma medalha porque Olimpíada é algo muito difícil. A gente tenta chegar ao melhor tempo possível, eu tenho que chegar em Tóquio melhor do que cheguei no Rio em 2016. O nosso projeto é treinar muito bem, fazer todas as competições, o trabalho em altitude, trabalho técnico. Em Sobradinho é perfeito porque sempre tem subida. (risos) No Rio, eu fiquei a 5 segundos da medalha, nesses quatro anos, nós trabalhamos muito para tirar esses 5 segundos.

Você tem um exemplo dentro de casa que é sua mãe, que foi campeã brasileira oito vezes, campeã ibero-americana e sul-americana. Como é ter uma treinadora e mãe ao mesmo tempo te puxando?

Ela sempre foi minha treinadora, desde o futebol, ela sempre comandou tudo por ter muita disciplina. Para mim é uma honra ser treinado pelos meus pais. Ela é muito dura, mas nesse esporte é preciso ser assim, e eu gosto dessa linha de pensamento, então a gente sempre tenta não deixar escapar nada, essa é a filosofia dela, de sempre estar em cima.

Se você não tivesse apoio dos seus pais, você acha que seria um atleta profissional hoje?

Literalmente, não. Meu pai sempre sonhou que eu iria fazer a marca para chegar às Olimpíadas, o que eu não conseguia enxergar, mas ele já estava enxergando. Isso foi o mais legal. Minha mãe entrou um pouco mais tarde porque ela ainda era atleta quando eu comecei, então ela chegou apontando aquilo que era necessário eu aprender para poder me ajudar. Toda a visão que ela tinha de prova e da parte técnica, ela foi juntando, e assim montamos um time. Sem eles, eu não estaria aqui.

Como é o apoio para o esporte em geral e para a marcha atlética, especificamente?

É frágil. Quando eu comecei, meu pai me bancava. O Brasil não via muito que eu conseguiria ir para a Olimpíada, foi meu pai que acreditou em mim. Foi muito difícil. Pós Olimpíada do Rio, muitas coisas mudaram em questão de apoio, incentivo. É muito difícil para o jovem que está começando, principalmente na marcha atlética. Temos as bolsas atletas que contemplam desde o estudantil, até aquele que tem chance de pódio da Olimpíada, isso é o que sustenta o Brasil hoje. Apoio da iniciativa privada é muito difícil.

Hoje você vive essencialmente do esporte?

Sim, essencialmente do esporte. Consigo isso porque eu tenho uma bolsa atleta, tenho ajuda do comitê olímpico. Mas ainda é preciso que a gente tenha reconhecimento e apoio para melhorar nossa estrutura de treino. Eu estou competindo com um americano em que o comitê olímpico dele tem uma esteira especial, uma estrutura muito melhor, uma sala climatizada em que ele seleciona o lugar do mundo que ele quer personalizar o clima e a sala automaticamente fica com aquele clima, e eu não tenho isso. Eu tenho Brasília com um clima que oscila o tempo todo e tenho a altitude de Sobradinho. Todo mundo critica o desempenho do brasileiro, mas não vê que ele não teve o apoio que teve aquele cara.

Aqui tem atletas jovens que se espelham em você. O que você diria hoje a um jovem que quer se dedicar a um esporte, que tenha a marcha atlética em mente, qual orientação você daria a ele?

Se ele quer fazer atletismo, Sobradinho está de portas abertas. Aqui não tem que pagar nada, é um clube, temos vários apoios de calçada, a Caixa que patrocina o clube e é fundamental. Com qualquer outro esporte, é preciso ter disciplina, e o mais importante para mim, que é perseverança, vão ter momentos difíceis, mas se esse jovem quiser chegar longe, ele precisa assumir todas essas responsabilidades, e topar alguns desafios.

Você falou uma vez “Eu gosto muito do Caio da segunda-feira”. O que é o Caio da segunda-feira?

É o cara que recomeça, o que, mesmo se der tudo errado na competição do sábado, eu sei que naquela semana, na segunda, eu vou estar pronto. Isso é o melhor. É algo meu, eu gosto da superação, de sempre estar mais motivado. Quando ninguém está vendo, é que você dá o máximo de si. Dali, é que vem a medalha.

Assista a entrevista completa com Caio Bonfim:

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Márcio Caetano