ENTREVISTA: Valério de Medeiros, PHD "em Brasília"


Arquiteto e urbanista, doutor em Urbanismo, pela UnB, e pós-doutor em Arquitetura, pela IST/UL/Lisboa, Valério fala de Brasília com propriedade, sensibilidade e conhecimento de quem estuda a fundo seus desafios, problemas e perspectivas de futuro.

Jornal Nosso Bairro - Brasília foi construída para ser o símbolo do modernismo no século 20. Após 58 anos, como o senhor avalia esse “símbolo” e sua relação com os brasilienses?

Valério de Medeiros - Brasília, mais especificamente o Plano Piloto, é uma das mais importantes expressões do urbanismo do século XX no mundo. A modernidade de Brasília estava em seu arrojo e concepção inovadores para a época, naquela escala. Além disso, havia uma perspectiva de integração nacional. Passados 58 anos, Brasília mantém-se representando esse caráter de mudança, uma vez que a política é o meio de transformação social. Apesar das dificuldades que o país vem enfrentando, a cidade tende a se associar a questões negativas por ser sede do poder federal. Por conta desses aspectos – a cidade símbolo urbanístico e a cidade das crises políticas – há um conflito entre admirar e rejeitar Brasília. Seu peso é também sua responsabilidade: é a partir dela que as decisões são tomadas e afetam a vida de todos nós.

Brasília apresenta problemas de grandes metrópoles. Existe alguma possibilidade de adaptar a cidade ao modo de vida desses centros urbanos?

Por ser classificada como de interesse patrimonial, Brasília experimenta um desafio continuado entre ser modernizada ou ser preservada. Outra questão é o equívico de tratar Brasília como Plano Piloto, apenas. A estrutura urbana completa é muito mais vasta e abriga uma população que ultrapassa as fronteiras do DF. Além disso, um conjunto de políticas de ordenameneto do território são responsáveis por produzir um quadro em que os mais ricos moram mais próximos ao Plano Piloto, enquanto grande parte da população é obrigada a se deslocar dezenas de quilômetros diariamente. Há ainda grandes vazios entre os núcleos ocupados, o que torna o custo do transporte público mais elevado e, de uma forma ou de outra, acaba por favorecer a grilagem de terra, a especulação e o custo elevado de manutenção do sistema urbano.

Projetada para 500 mil pessoas, Brasília é ocupada por milhões. Como promover a descentralização e melhorar a mobilidade urbana nesse cenário?

Brasília foi projetada para 500 mil nas áreas que incluem Plano Piloto, Lago Sul e Lago Norte. Somadas, alcançam cerca de 300 mil habitantes. Significa que essa área poderia ser mais adensada, com mais pessoas morando e se beneficiando da proximidade com o centro. O problema está na distância entre os núcleos residenciais e a oferta de empregos e serviços. Embora a situação esteja progressivamente melhorando, o Plano Piloto concentra mais de 40% dos empregos do DF. Entendo que o caminho para amenizar a situação esteja baseado na descentralização, para promover mais centralidades nas RAs que integram o DF, de modo que haja mais oferta de emprego fora do Plano Piloto e melhoria na rede de transportes. Em relação à mobilidade, a melhora somente irá acontecer quando a classe média se dispuser a usar o sistema de transportes, em razão de sua influência nas políticas públicas.

Percebe-se cada vez mais o uso dos espaços públicos pelos brasilienses. Como o senhor avalia esse movimento do ponto de vista da morfologia urbana?

É excelente ver e usar o espaço público em Brasília. Muitas experiências ao redor do mundo demonstram que a vida na cidade é dependente da utilização dessas áreas. Quando vemos pessoas nos espaços públicos, nos sentimos convidados a usufruir a cidade. É o processo de ocupação que fará a cidade mais viva. No que diz respeito à morfologia urbana, esta ação é fundamental para amenizar um problema que a forma da cidade gera: os grandes espaços abertos não convidam a permanência, pois o sentido de amplidão é importante para valorizar edifícios e reiterar o simbolismo de capital, mas para a escala cotidiana isso gera distâncias muito grandes e torna penoso o caminhar.

O Sr. acredita que os “filhos das antigas cidades satélites do DF” também se consideram filhos de Brasília? Por que?

Todos dizem que são de Brasília, mas acho importante perceber um progressivo processo de afirmação em que as pessoas têm orgulho em dizer de quais cidades são. Esse fenômeno é importante porque tornam socialmente visíveis algumas áreas que para muitos, que vivem no Plano Piloto, não passam de uma indicação geográfica, muitas vezes cheias de preconceito. Apesar de planejadas, as RAs são heterogêneas e envolvem tentativas de reprodução de estratégias espaciais do Plano Piloto e centros urbanos densos e vivos. O que não pode acontecer é a existência de duas cidades que não dialogam, e às vezes tenho impressão que essa é uma realidade por aqui. Ser filho de Brasília não pode e não deve ser apenas “filho do Plano Piloto”.

Em sua tese de doutorado, o senhor faz uma relação entre o baixo nível de integração espacial com problemas como disparidade social, transporte caro, entre outros. Brasília é um exemplo desse tipo de cidade?

Sim, Brasília é um exemplo claro dos efeitos perversos de uma estrutura urbana fragmentada. O curioso é que as características citadas são aquelas comuns em cidades brasileiras que sofrem forte influência da paisagem local. Brasília tem essas características por responsabilidade das políticas de ordenamento territorial que reforçaram a ideia de grandes distâncias entre os centros urbanos, resultando numa cidade bastante fragmentada, o que compromete o transporte público e induz ao uso do transporte individual. Entretanto, as políticas ainda parecem não enfrentar coerentemente o adensamento, pois ao não resolver a questão do transporte, a cidade cresce e os problemas são maximizados.

O que o senhor espera de Brasília nos próximos 58 anos?

Espero mais diálogo e uma cidade menos desigual. Desejo que a cidade se reconheça além do Plano Piloto. A questão é que sempre a sociedade é maior do que o espaço. Gosto sempre de remeter ao texto de Lúcio Costa quando, nos anos 1980, ele retorna à rodoviária do Plano Piloto e, ao ver a multidão, enxerga a seguinte lição:

“Isto tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. É o Brasil... Eles estão com a razão, eu é que estava errado. Eles tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. […] Na verdade, o sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mais bela”.

O espaço nos ensina, mas a cidade também deve aprender com a sociedade. Este diálogo entre Brasília e seus habitantes, de todas as esferas, é fundamental para se construir a cidade do futuro que desejamos: diversa e equilibrada.

#Brasília #Urbanismo

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Márcio Caetano